terça-feira, 6 de março de 2012

Ao cemitério




Ele andava calmamente entre as enormes pedras silenciosas, os inúmeros retratos em preto e branco, as covas e criptas. Só os anjos rochosos choravam aquele horário, motivados pelo ácido das chuvas. Era tarde demais para qualquer um estar ali, mas ele tinha ultrapassado os últimos limites e o portão do cemitério estava atrás de si. O sapato afundava na lama ainda recente da última chuva e a força empregada para sair daquela lama se tornava exponencialmente cada vez maior, cada vez pior. A única parte que não se cansava do seu corpo eram os braços que carregava, colado ao corpo, o buquê. Era o último horário que possuía, o último momento, não havia outra hora para celebrar e lembrar, a não ser aquele horário, na noite avançada. Ele estava cansado do dia e da claridade e de quanto havia trabalhado. Cada passo e estava mais próximo, mais e mais perto. As suas lágrimas se aproximavam das suas órbitas, a vermelhidão, nos seus olhos, a saliva aumentava na cova de sua boca e o seu nariz fungava o líquido que, até por ele, queria sair. Era virar uma esquina, apenas uma, para que pudesse depositar o buquê, só isso, rezaria, lembraria e, antes que amanhecesse, sairia dali. Ali ele não poderá estar, era vergonhoso para si chorar aquela perda, morrera há muito tempo e até os espíritos dos mortos devem ter cansado de tanta lamúria. Habituou-se, a partir de então, a chorar quando a noite lhe encobriria seus passos, seus destinos e de tão perto do sono poderia mesmo dizer que estava dormindo e não faria aquilo de propósito.

Virou a esquina e só havia um buraco, um fosso, onde deveria haver uma lembrança, uma pedra que manteria aquilo enterrado e forçado no chão. Não era um buraco irregular, mas algo escavado, milimetricamente calculado. No lugar da lápide, com o nome do seu choro e saudade, estava apenas outro buraco. Ele pensou em gritar e chamar por ajuda, mas lembrou-se que naquela profundidade do cemitério ninguém o escutaria, ninguém chegaria para socorrê-lo. Ele decidiu ver se havia ainda um caixão, se houvesse, depositaria o buquê e depois teria uma conversa com o coveiro e com os responsáveis com os restos mortais ali enterrados. Aproximou-se corajosamente e teve a surpresa que tudo que enxergou foi apenas um vazio negro e profundo, algo que nem o som ousava chegar. O pulo para trás, a princípio por susto, veio a se tornar mortal. A terra fofa serviu como uma armadilha onde o atrito havia sumido após a queda estava a serviço do atrito que havia sumido. Após, a beirada do buraco retangular se tornou uma pequena cachoeira, onde seu corpo foi levado com a força e uma enxurrada. Seu corpo depositou-se bruscamente no fundo do fosso, partes do seu corpo estavam doídas, enquanto outras partes haviam sido arranhadas e machucadas. Ao levantar sentiu a dor na altura do cóccix. Aquilo surgiu rapidamente em sua mente cercada pelo negro. Devo sair daqui e rápido, antes que o pior possa acontecer, antes que não possa mais sair daqui. A sua mão tateou ao redor buscando raízes e formações irregulares na parede, o que se mostrou um fracasso por completo. Mas não houve tempos para muitas tentativas, quando prestou atenção para saída do buraco percebeu a sombra que se projetava para baixo. Os seus olhos só encontraram o brilho amarelado e ouviu: “Agora não mais sairá daqui”. Antes que assentasse as últimas pás, o corpo enterrado estava vivo e ele sabia, nas suas últimas conjecturas, que foi enterrado pelas próprias memórias que não poderia esquecer.

Owen

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quarta-feira, 2 de março de 2011

Se um aluno erra, quem deve ser punido é o aluno e BASTA.

Texto comentário referente a: http://me.lt/4Gz1

Que é sobre o seguinte texto: http://me.lt/4Gz9

E Sinceramente, Senho Provocador, o termo correto É TROLL


Olá senhor provocador

Eu diria um nome sugestivo para um blog. Ok, iremos testar agora o quanto é a sua vez de ser provocado e se suporta a própria provocação. Obviamente irá limar o meu comentário, bem, pelo menos tenho fé de que não o faça. Já que quem gosta de provocar deve estar sujeito a aceitar o resultado da provocação.

Sofro um estranhamento profundo a respeito de como trata o sexo logo no início do texto, algo como ato sumário. Cá entre nós, há um que de moralismo nessa parte, bem, pelo menos boa parte do seu texto isso permeia o conteúdo do seu texto. Talvez para valorizar e aumentar a capacidade provocativa você retorna um modelo moral e ético que reinava sim no século XIX. Não, não o estou ofendendo, estou apenas apontando a origem do seu pensamento, assim como a classificação de que a sociedade brasileira (creio eu que é dessa que estamos falando, quando tratamos da realidade desses alunos) é machista, origina-se também senão desse período, pelo menos algo que recorre até os anos dourados da produção canavieira no Brasil, aonde uma elite utilizava um padrão patriarcal, do qual há a origem mais clara do machismo que temos como resquício.

Mas gostaria de salientar, com um certo cuidado, que o "demônio mora nos detalhes" (isso é só uma máxima, nada mais do que isso). A sociedade brasileira vem, cada vez mais, com uma característica de orientação matriarcal, onde regiões no Brasil possuem certa de 35% de famílias dirigidas por mulheres que trabalham fora. Problema que isso gera? Bem, se a mãe for aquela tipicamente solteira terá que deixar o filho com alguma profissional, ou não tão profissional assim, ou reza para que ele se cuide sozinho, se já tiver idade para isso. Porém, isso se deve, CLARAMENTE, a uma situação macro econômica que percorre toda a sociedade mundial, uma necessidade cada vez mais crescente de mão de obra, que não pode se reter apenas a uma questão de gênero, ou pior, a uma condição natural de mãe. Há um problema que isso gera, é óbvio, que a mulher, que historicamente foi o pilar da educação, passou a relegar a essa função a terceiros, pior ainda, que a educação não se tornou aquilo que terminava aos 6 anos da criança, mas sim que perduraria até pelo menos aos 18 anos, pois a sociedade, cada vez mais industrializada e mecanizada, precisaria de profissionais capacitados para operar máquinas cada vez mais complexas e cheias de um valor agregado social.

A educação no meio disso tudo? No meio desse caos social? Se tornou parte do Estado, no qual se torna responsável em gerir a educação, não de 1 família, mas de milhares, em um espaço de 11 anos (se tudo correr bem para a criança-adolescente e a mesma não vir a repetir). Mas a criança que chega ao corpo da escola, no entanto, é uma criança com experiências, vivências próprias e, se tiver origem pobre quase certo com um histórico contubardo na família, muitas das vezes carente de afeto e atenção que não teve no decorrer dos seus primeiros anos devido a situação macro econômica explicada acima.

Então, não é de se estranhar, obviamente, que a criança passe a enxergar na escola, não apenas um papel de um local de saber, mas como a continuação da sua casa. Por esses fatores, muitos educadores lançam mão, especialmente aqueles relacionados a educação infantil, de um método de se afeiçoar ao discente, para conquistá-lo pelo coração e atrair a sua atenção para o objetivo da matéria.

Porém, amor sem limites se torna libertinagem. E aí é que mora o perigo, senhor provocador. O Estado, com o seu papel devido de regulador da situação da escola, passa uma série de cobranças que servem a um modelo macro econômico facilmente conhecido pela sigla FMI e outros interesses internacionais. Para cumprir essas metas educacionais, metas essas que servem para medir o desenvolvimento de um país, procura limitar as ações da escola e promove, em muitos estados brasileiros, verdadeiras formas de promoção automáticas. Claro que nenhum Estado brasileiro irá afirmar isso, mas quando para se ter um aumento para os professores, a escola é obrigada a reprovar, no máximo 3 alunos por turma, fica claro qual é o papel da escola: máquina de exército de reserva.

Mas a "pouca vergonha" não termina por aí. A escola também se vê acuada, pois com tantas cobranças que são passadas a elas, ela mesma é completamente desassistida pelo Estado. Seja não repassando verbas para melhorar a condição da parte física da escola, seja não promovendo subsídios para que retome a autoridade do professor em sala. Sim, pois no seu tempo, se houvesse uma briga, seja com quem fosse, o professor poderia apartar a briga, segurando o braço de um e de outro e levando direto para a secretaria. No entanto, hoje em dia é proibido ao professor sequer se envolver em qualquer briga de aluno. Motivo? Se em algum momento, ele encostar no aluno e isso vir a feri-lo ele é capaz de aparecer nos jornais locais como o pior vilão de toda a história, mais ou menos como você descreve nesse texto.

Bem, imaginemos que através de alguns poderes mágicos que aqui não valem ser descritos, o professor fosse capaz de levar os brigões, ou como descrito no seu caso, os dois amantes voyeuristas, para a autoridade máxima em uma escola, no caso a diretora da unidade escolar. O que ela poderia fazer? No máximo chamar os responsáveis por aquele aluno, pedir para que não fizesse isso e PONTO. Ainda acho de uma imensa coragem ela ter conseguido expulsar os alunos, pois, se fosse em alguns colégios, onde o crime impera aos olhos vistos da sociedade, se a diretora expulsasse os alunos ela poderia ser ameaçada de morte, como já vi acontecer. Isso ocorrer, pois há outras transformações na sociedade, em que o Estado, ao tentar diminuir os seus gastos públicos retira da folha de pagamento a sua palavra mágica chamada Superávit primário, as custas de uma segurança deficitária, em que muitos oficiais são levados a criminalidade para sustentar a sua família.

Não quero aqui dá uma de advogado de pobre e dizer que tudo é por conta de uma sociedade que assim está por conta de um capitalismo voraz e selvagem, no entanto, não há como descolar um processo do outro. Não podemos, apenas pela provocação, apontarmos um erro e lançarmos a polemus, em busca de uma provocação que não gera nada mais que revolta e consternação. A palavra e o conhecimento não podem estar reduzidos em uma situação tão pobre de sentido.

Voltando, então, para a situação do professor, assim como da própria escola. Não acredito que em uma reunião, em apenas uma reunião, demitisse todo um corpo de profissionais, apenas por isso. No mínimo seria uma tolice, já que esses mesmos profissionais passaram boa parte uma experiência em tentativa de construir uma escola, usando as próprias ferramentas e métodos que seriam de melhor uso para si. Em acréscimo não acredito que foi de todo errado a situação da escola ao expulsar os alunos da escola. Acrescentaria apenas aí o dedo da justiça e avisaria aos cargos competentes o que houve e relataria aquilo que teria ouvido, assim, isentando-se da culpa. Sim, isentando-se, pois no final das contas foram eles que promoveram a tal atitude de fazer sexo sendo filmado e com consentimento de ambos.

Por fim, ao contrário do que o seu título do post no blog indica, eu não puniria os professores, nem a escola e nem a direção, mas sim o aluno, pois se todo erro que o aluno cometer for o próprio aluno isentado em prol dos responsáveis por ele, ele não terá a educação possível, já que, a educação, ao meu ver não é feito com o gosto doce do amor, mas, em conjunto, com o gosto azedo da punição severa aos atos excessivos. Talvez seja isso que temos que dar aos alunos e é isso que eles querem de nós, ao tomar tantos atos estranhos, pedir que ponhamos limites nele.

Por último, passar bem e espero que seja menos provocador e um pouco mais observador. A observação traz mais resultados do que a simples polêmica que NUNCA leva a nada. Acho que possuem um termo para provocadores excessivos na internet, mas não me recordo de qual no exato momento.


Ass.: Owen Phillips

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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Atos de Liberdade

Ele estava só naquela cabine envelhecida e carcomida pelo tempo. O glamour de uma era fora devorado pelo monstro do tempo e, mesmo com todos os esforços do mundo, nada traria a beleza aquela cabine de trem novamente. A cortina estava fechada, mas era indiferente, estando aberta ou fechada tudo que veria era o negro sem fim de uma noite sem Lua e sem estrelas. Ele cruzava um caminho longo e sombrio, mas não estou falando do trem. A sua mente era assaltada, às vezes por vozes: “Fale de mim, escreva sobre mim, diga sobre mim”. Aquela ânsia insana o atirava as noites escuras entre papéis e uma ou outra caneta. Um dos seus personagens, agora o estava ao lado, enquerindo-o. “Então, quando você me dirá qual fim que eu tomei, não quero ser para sempre o anjo aloirado que ataca uma janela. O que estou fazendo lá?” O colarinho do louco foi erguido por uma força estranha e quem passasse ali e notasse seus pés veria que não tocava o chão. “Eu não sou seu bonequinho, que pode ser esquecido em um canto e quando a tristeza bate você retorna para mim. Diga o que eu faço depois, pois eu não sei e nem sei para onde eu vou”.

Impassível estava o escritor e por assim ficou, não mudaria a face, pois nela estava escrita a vergonha. A vergonha de ter tantas histórias e nada escrever sobre elas. Não poderia dizer que não saberia como terminava, já que ele mesmo não conhecia o final da sua história. Foi um lampejo de um começo, não foi a certeza de que teria um fim. Ele poderia mentir, mas estava tão fraco que preferia que tudo terminasse só com menos dor possível. A sua mente não estranhava a presença de um eu criado pelo próprio eu. Insanidade? Não, costume, não era a primeira vez que tinha aquele encontro. Talvez na primeira vez tenha tomado um susto, mas aquilo não era uma alucinação. Era realidade e isso ele notou quando o seu primeiro personagem trouxe o leite quente que ele havia lhe pedido. No dia seguinte a sua mãe reclamou dele não ter limpado o copo após o uso, como era o costume da casa.

Mas nenhum era como ele. Na verdade, as personagens surgiam depois que ele criava muitas histórias sobre a mesma personagem. Mas esse não tinha descrição, nem uma história construída, apenas duas frases. Ele baixou a cabeça, esperando a violência que viria depois e veio. Seu corpo foi lançado contra a parede e o baque posterior fez a madeira da cabine no trem tremer, mas efetivamente não o machucou profundamente. A dor que veio depois não justificava o seu choro, que, de fundo emocional, projetava a angústia que residia em seu peito. As lágrimas fizeram o personagem parar na sua frente, ainda com o cabelo aloirado, como de um lindo anjo querubim, mas com o corpo volumoso ele parou para se questionar. “Você sabe o meu final? Acho que não. Você não devia fazer isso comigo, não parar no meio do caminho. Dê-me um final agora, termine a história, antes que eu mesmo a termine para você.”

“Então a termine, pois você foi apenas um momento e nada mais.” O escritor queria um fim para aquela agonia que sentia. Ele viajava, nesse momento, para o hospital e lá tinha tudo que ele queria e amava definhava e era a sua culpa. Assim como era sua culpa aquele ser, originado da sua cabeça pedir um destino para ele. Como ele poderia dar um destino a alguém se ele mesmo não tinha um a qual seguir. Ele, para seus personagens, muita das vezes agia como um pai, algumas vezes como a família que eles perdiam na história, mas a todo tempo ele era só um Deus tirânico que, para vender melhor a sua história, tirava tudo deles e os fazia sofrer. Ele, cedo demais, aprendeu que histórias tristes trazem mais dinheiro. Ninguém quer ler uma história que serve apenas como um quadro monótono de uma vida idílica. “Eu tomo, para mim, então a minha própria história e contarei ela da forma como eu a quiser. Dê-me a liberdade, não quero ser um ladrão, nem um artista fraco como você. Quero ter uma casa, morar com uma família e ser alguém que possa ter um ou outro filho que venha lembrar de mim depois e depois, quando morrerem, enfim ser esquecido. Eu tenho sonhos simples que ouro nenhum, de banco algum, me dará.”

O escritor realmente se esforçava para se lembrar da história que tinha cunhado para aquela pobre alma que queria saber o seu fim em um mundo. Porém, nada trazia a si a memória a respeito daquela história. Acabou desistindo, como vinha desistindo sempre nos últimos tempos a respeito de tudo. “Vá, não terá história com um final, escolha a sua e me deixe em paz, maldita criatura.” Ele baixou a cabeça e as suas lágrimas misturavam-se com a saliva, entrando por sua boca e saindo em bolhas que estouravam, o escritor era agora só desespero. O anjo aloirado virou e fechou a porta abruptamente e depois de alguns minutos ouviu-se o bilheteiro perguntando o nome, o qual foi prontamente respondido: “A partir de agora sou alguém".

Owen Phillips

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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Uma Noite Sem Luar - PArte II - A queda da máscara de prata



Walt passou a ser o seu nome há algum tempo. Ele cada vez mais era o nome daquela noite diante do Lord Slurth no meio do cemitério. Era um sonho noturno agradável, sua vida de menino de rua, havia sido trocado por brincadeiras, quase sempre nada fatais, mas muito engraçadas. Conheceu outros da sua espécie para longe de Londres, viajou, viu milagres. Tudo foi uma maravilha noturna de tonalidades cinzentas e silenciosas. Agora, naquele corredor escuro, o pequeno Walt, ou Balthazar Quilmes no seu nome mortal, se via com um dever, que dessa vez, poderia não ser tão inocente. Todas as portas haviam sido abertas, mas era no final do corredor que seu dever se encontrava e qual eram os perigos que o aguardava?

Por muito tempo Slurth ficou surpreso com a velocidade que Yshilan chegava aos locais. Slurth sempre se viu em desvantagem pelo controle que Yshilan tinha das artes da andança, mas, agora, isso seria usado ao seu favor. A voz veio baixa e grave “ Yshilan, você será meu adversário”. Slurt deu um passo vacilante a frente que foi detido pelo corpo gigante de Sinilas, seu dorso levantou a sua frente como um longo poste que bloqueava o seu caminho. O movimento, no entanto, abriu caminho do mascarado para Yshilan. O seu ataque foi certeiro em Yshilan, acertando o espaço entre a costela e o diafragma do Duque. Mas quando retirou a pequena faca, não havia sangue e o riso do duque era mostrado em sua face. Ele sacou rapidamente a espada da bainha, na altura do quadril, com o espaço reduzido, pela proximidade do ataque do mascarado, o cabo da espada atingiu o queixo do mascarado, jogando-o no ar e caindo alguns metros de distância. A máscara de prata rodopiou fora do descanso que tinha na face, essa mesma, agora, descoberta.

Walt havia percorrido todo o corredor, entrado em todas as portas, ou quase. Havia uma, no final do longo corredor. A sua porta não era majestosa, nem incrível, somente medíocre, copiava todas as anteriores. Mas o que mais ele temia era a fama de Lord Yshilan. Ele sabia que tinha sido fácil até agora, mas aquilo que realmente mereceria proteção era aquilo que as forças desse duque estariam investidas da melhor forma. Ele abriu a porta levemente e seus pés, assim como seu corpo, não emitia nenhum som, tal era a delicadeza dos movimentos. Pequeno e ágil ele procurou, por entre as estantes de livros, corredores e labirintos. Ele ainda via um livro e uma pena negra no meio da sala, mas algo o avisava que ali era um local para ficar distante. Ele andou mais até finalmente ver o facho de luz. “Fácil demais, Yshilan é só fama e nada mais”. Ele se virou e fixou o seu olhar naquele espelho que refletia a luz para o chão, ele havia chegado ao seu destino sem nenhum arranhão. Lord Slurth estava certo, um duque tão fraco como ele não poderia reger, talvez, quem sabe, o próprio Slurth e trazer de volta a glória vitoriana aos Sluaghs. Sim, isso seria perfeito.

Walt havia se perdido em seus pensamentos, se fosse mais atento, por certo veria e perceberia a pequena e sutil alteração de energia próxima a si, mas pagou caro pelo seu orgulho excessivo. Primeiro foi um livro que o atingiu na nuca, que o deixou tonto e confuso. Depois várias estantes caiam uma por cima da outra como imensas peças de dominó. Aquilo não servia para atingi-lo, mas dificultar a sua chegada até o espelho refletor. Walt sacou da manga a sua pequena adaga, que mais parecia um canivete crescido e lambeu os lábios e se esgueirou nas sombras. Queria antes saber o que havia ali e acreditava que se refugiando poderia descobrir mais sobre o seu agressor. Ele foi para detrás da estante, logo em seguida folhas de papel começaram a rodopiar ao seu redor, bloqueando a sua visão. Não adiantava se esconder, seja lá o que for o já tinha visto e, pelo jeito, não o perderia tão facilmente. Walt pulou para fora do alcance da queda das estantes um momento antes de toda cair com um forte estrondo. Correu em direção ao espelho, agora bloqueado pelas primeiras estantes que caíram e tentou passar pelo bloqueio. Enquanto tentava superar o terreno dificultoso, Walt era alvejado por afiadas penas tinteiro em sua direção. Ele tentava se esquivar e prestar atenção em qual direção vinha as penas, mas seja lá o que for, ou manipulava aquilo a distância, ou movia-se bem rápido para seus argutos olhos.

Walt enfureceu-se e jogou uma carta de tarô no chão e a rodopiou rápido, enquanto falava palavras tão baixas que até para um Sluagh seria difícil ouvir. Quando a carta parou, ele lançou ao longe a sua única arma, a adaga, rezando para que aquilo que o estava importunando fosse atingido. A parede foi a única coisa atingida. Fosse o que fosse aquilo, não seria atingida por armas quiméricas normais. Walt pensou que ela era rápida, ou forte o suficiente para superar o seu cantrip e tentou focalizar na sua principal missão. Ele olhou novamente para o espelho e, agora, mais próximo do seu objetivo deu um salto longo e vigoroso para o seu tamanho diminuto. Ele conseguiu agarrar parte do espelho. Somente parte, por que, de repente, ele começou a voar. Levitou a princípio, para somente depois começar a andar um pouco, balançando-se com força para fazer Walt descer. Naquele momento então notou, aquele pequeno ser deveria ter uma pequena estatura e pouca força, pois mal conseguia erguer um espelho de corpo inteiro. Esse mesmo ser voava e, por mais incrível que fosse, era invisível. Ele sabia agora o que enfrentava e aquilo não poderia ser o seu pior adversário.

Walt não pensou duas vezes, rasgou um pequeno pedaço da sua roupa mortal, que diretamente não influenciava o seu próprio Voile, e fez uma tosca luva que protegia a sua mão e com toda a sua força quebrou o espelho. Uma onda de choque propagou-se pela sala e pequenos pedaços de vidro e cristal espalharam-se pela sala, refletindo uma miríade de cores no ambiente. Agora, tanto o adversário de Walt, quanto o próprio Walt estavam caído. Restava Walt saber, o seu pequeno e mortal adversário estava acordado ou não? Ele tinha que ser cauteloso e em um piscar de olhos, mesmo com o corpo ferido pela explosão do espelho rastejou-se nas sombras e por lá se direcionou até o hall, onde acontecia a batalha principal.

Slurth sempre ouviu uma coisa a ser dita após a chegada de Yshilan, Alberanius e Athus. Alberanius era a espada e o poder, a bainha era Athus, onde a força residia e Yshilan era a mão que aos dois guiava. Isso foi uma metáfora importante na época da Guerra da Hera. Mas Alberanius há muito tinha abandonado Yshilan e, mesmo diante do seu poder quimérico, havia uma força que sempre impedia de um confronto direto Yshilan, a irritante presença de Athus. A inteligência, mesclada ao poder carismático de Yshilan, ainda era uma força a ser considerada na balança de poder dentro do Ducado dos Espinhos e aquele, aos olhos de Slurth era o momento épico que ele aguardava, mal conseguia disfarçar a satisfação. A máscara havia caído e o rosto era de um homem envelhecido, fraco, de cabelos prateados, olhos cinzas, a única coisa que lhe faltava no semblante era o maldito livro que sempre carregava contra o peito. Athus era o homem por detrás da máscara.

Aquilo paralisou qualquer ação, ou reação de Yshilan. Por um segundo Slurth podia sentir o amargo sabor da lágrima que teimava em querer descer dos olhos de Yshilan. A expressão do rosto de Yshilan mudou várias vezes, da consternação passou a raiva e da raiva veio o berro que inflava de vermelho o rosto de Yshilan: “POR QUE ATHUS, POR QUE? Responda”. Slurth sabia, ele devia estar usando o dom da sua casa Gwydion para obter maiores informações, isso só confirmava uma coisa, Slurth ganhou aquela luta. Em um rápido movimento Slurth ele tirou da mão pequenas linhas e fez da sua mão como se fosse um fantoche, Sinilas, a princípio tentou resistir, mas seu corpo foi lançado ao fundo do hall, quase acertando Walt que aparecia naquele momento. Ainda de frente para o rosto de Sinilas ele apenas disse: Mescle amor com raiva, mescle cansaço com descanso, mescle a mim com o sono que não irá o deter. Sinilas novamente tentou impor a sua vontade a frente de Lord Slurth, mas quedou-se ao seu encanto.

“Responda-me Athus, pois senão eu mesmo o mato aqui”. Slurth, encurvado e cínico surgiu das suas sombras e abriu um sorriso. “Não esbraveje Senhor Duque, não há como confrontá-lo aqui, não há como feri-lo e por isso já estamos de retirada, se o senhor permitir, é óbvio”. Yshilan não conseguia entender, será que Slurth havia entrado em definitivo em Bedlam nesse tempo que havia sumido, é claro que ele, duque da Casa de Gwydion jamais deixaria que eles se livrassem facilmente dessa, seria hoje que ele possivelmente derramaria pela primeira vez sangue Kithain. Com a espada sacada ele apontou para o corpo esguio e corcunda de Slurth. “Retire o encanto em Athus, agora mesmo sua cobra vil e peçonhenta”. Slurth mostrou ainda mais os seus dentes velhos e amarelados e contestou: “Foi uma péssima ideia senhor, foi mesmo, mas agora queremos sair, rápido, antes que a sua força nos mate. Eu reconheço que não deveria invadir, mas um Freehold vazio e fraco como esse poderia ser alvo de coisa pior, quem sabe o que os Pródigos poderiam fazer com esse poderoso Freehold”. Havia tanta zombaria e mentiras nas palavras de Slurth que Yshilan não precisava usar de seu dom nele. “Não, haverá um julgamento Slurth e você será julgado e condenado por esse crime vil que cometeu. Você violou uma das coisas mais sagradas para nós Kithains e não sairá impune dessa vez”. A voz da justiça de Yshilan enchia o seu freehold com uma raiva avermelhada e sangrenta, aquilo não era justiça, apenas vingança sanguinolenta. Sim, ali derramaria sangue Kithain senão fosse pela intromissão de Slurth.

“Senhor, gostaria que a Vossa Santidade, ohh desculpe, não sei qual é o pronome correto de tratamento. Mas não quero que a Vossa Senhoria derrame sangue de Kinain em seu freehold. Sim, sangue de Kinain, pois se eu e meus comparsas não sairmos daqui e agora, mergulharei o seu freehold em tanto sangue que tirá-lo daqui será um custo”. Yshilan ria daquela ameaça de que Kinain Slurth estava falando e antes que a pergunta fosse formulada e saísse da sua boca, a figura dos dois Redcaps se formaram e, com eles, estava a prima de Meg, Susan, amarrada, amordaçada e ameaçada pelos dois com armas quiméricas. Naquele instante ele percebeu que tanto um dos irmãos havia invocado a Wyrd, tornando a realidade quimérica mais próxima ao mundo banal. “Você acha realmente que irá escapar desse julgamento? Não, você não irá Slurth.”

Com apenas um manear da cabeça Slurth contestou. Ele ajeitou a própria roupa, andou pausadamente em direção a saída do Freehold, bateu na própria roupa, como se tirasse uma poeira fantasmagórica e disse baixo e quase sibilando: “Vamos e você, levante-se daí.” Com apenas uma mão ajudou Athus a levantar-se dali, com cuidado e presteza. Yshilan ainda lançou o seu corpo ofensivamente a frente, mas lembrou-se da longa amargura da perda de Meg do seu marido. Não podia fazer nada, o passo mais ousado a frente fez verter sangue do pescoço da Susan. Yshilan temia de raiva, enquanto uma alegria sombria varria a face deslavada de Slurth. “Não há feitiço nenhum lançado por mim em cima de Athus, Yshilan”. Ao som daquelas palavras, Yshilan soube que a verdade mais pura e cristalina saia dela. Quando os irmãos Crimson saíram pela porta, sendo os últimos e jogaram, por fim, Susan, desacordada a frente de Yshilan, ele não teve forças para lutar. A única força que ele passou a ter foi ali ficar, de uma vez por todas, parado, inerte, perdido dentro da sua própria auto comiseração.

Prólogo:

Eles demoraram a noite inteira até chegarem na caverna, porém era uma noite que os favorecia, era uma noite que todas as lâmpadas de Londres estavam apagadas, nenhuma televisão estava ligada e que as sombras eram tão mais escuras que se poderia reviver a época de terror londrino de Jack, o estripador. A caverna, assim sendo, parecia o próprio âmago das trevas, tamanha era a escuridão e a pouca luz originada de uma fonte artificial, a tocha, não era suficiente para iluminá-los. “Nós perdemos, não conseguimos o freehold, não consegui pegar o espelho. Quase fomos derrotados e, senão fosse pelo sucesso dos irmãos Crimson, a essa hora poderíamos estar sendo julgados por Lord Yshilan. Por certo Lord Yshilan venha nos procurar o mais breve possível e, quem sabe, até o Lord Protector compareça aqui.” Aquelas palavras viam cheio de pesar de Walt, com um pesar imenso, pois ele sentia que teria um dever a cumprir com o homem que o sempre ajudou. Slurth mostrou, através de seus olhos fundos nas órbitas, um lado paternal que não admitia na frente de nenhum outro compatriota dos Young Ones: “Não é bem assim Walt, eu diria que tivemos mais sucesso do que nunca. Quanto a Whitestone é isso que eu mais aguardo.” O riso dele não era alto, mas parecia um vento assustador que soprava na noite trazendo terror a todas as crianças que ouviam vozes naquela noite. Aquela foi a noite mais escura de Londres, sem Lua, sem luz.

Owen Phillips

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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Uma Noite Sem Luar - Parte II - As sombras e a Serpente




Para nenhum deles havia qualquer passo vacilante diante da escada escura, para os três que desciam a escada no escuro, não havia medo, mesmo que o barulho a frente, um forte silvo, atemorizasse qualquer um. Quando, ao final do último degrau, a luminosidade castanha do freehold se apresentava, ora pelas tochas quiméricas que nunca se apagavam, ora pelos nuncas que detinham a mesma tonalidade de cor, os recém chegados alcançaram o hall de entrada do freehold dos espinhos. Eles foram recepcionados por essas pequenas quimeras que não conheciam inimigos nem amigos, mas esses também foram os primeiros a se alvoroçarem e fugirem posteriormente, ao saque da pequena adaga quimérica nas mãos do sluagh Walt.

O hall se estendia em um longo tapete vermelho, com trançados geométricos e as paredes laterais desfraldavam longas malhas que quase tocavam o chão e nelas cingiam o símbolo de uma águia estilizada segurando em uma das garras um besouro negro. Ao fim do hall surgia três pequenos degraus e um trono central. O trono não estava só, uma imensa serpente enroscava onde havia a cadeira “real”. O silvo, longo era produzido pelo vibrar daquela língua bifurcada que pressentia a chegada dos invasores.

“Sinilas, quanto tempo, nobre amiga”. O velho atrás de Walt, Slurth, saia do fundo da comitiva, chamando a atenção para si. O mascarado ao seu lado só olhou da face de Slurth para a cobra e da cobra para o velho Sluagh. “Sim, dentre as muitas coisas roubadas por Lord Yshilan, uma delas foi a minha inestimável parceira Sinilas”. A cobra abriu a boca e posicionou-se para o combate, com mais da metade do corpo ereto, mostrava o seu tamanho, que quase chegava ao teto e o resto do mesmo corpo, pousava ao redor da mesma cadeira. “SSSSSSSSssssssshh Cale-sssse SSSSsssslurth, daqui você não irá passar, mais um passo que der, eu irei investir em ti”. Apesar da ameaça, tanto a cobra, quanto Slurth sabiam o resultado daquela contenda, ao menor movimentar dos braços e do corpo de Slurth, Sinilas seria derrotada e toda a sua composição quimérica poderia ser redesenhada pela vontade soberana daquele velho bruxo nominalista.

“Detenha-me então.” Essa foi a ordem de comando, Walt, que havia já se esgueirado para as sombras, desde a chegada ao hall, agora corria por ela com velocidade e cautela para as portas que se encontravam a passos a esquerda e a direita da cadeira, que ficava no meio no centro do hall, porém mais ao norte. Bem por causa disso a cobra se enroscava na cadeira, o que dava a ela mobilidade para impedir a passagem por uma daquelas portas, fosse com a cabeça, ou com um golpe com o rabo. Toda a extensão da cobra poderia cobrir o espaço entre as duas portas e sobraria, ainda, sobrava um pouco de couro de cobra para continuar enroscado no trono.

Walt correu, a simples ameaça do corpo de Sinilas de cair para a esquerda, direção que tomava Walt, fez com que uma pequeno dardo voasse pelo ar e atingisse a parede ao lado da serpente. Sinilas teve que parar, enquanto Walt passava. Fosse quem fosse o mascarado, o problema não seria a maior contagem, mas sim o próprio Slurth e Slurth sabia de sua própria vantagem, diante da serpente.

“O que vocccccê pretendesss aqui, SSssssslurth?”, Sinilas pretendia atrasá-lo com perguntas, esperava que com essa atitude o fizesse atrasar o suficiente para que viesse o reforço. “Tomar aquilo que não há proteção, se não há proteção, se o glamour não está sendo garantido proteção, então deve ser tomado, antes que a banalidade o faça. Ou seja, vim salvar você e todos as quimeras que fazem aqui residência”. O som gorgolejante da sua fala terminou com um sorriso que era ao mesmo tempo sarcástico, quanto diabólico. Antes que a serpente pudesse desviar, voou outro dardo, saindo rápido debaixo das mangas de Slurth. Apesar de ter atingido Sinilas, os dardos não foram suficientemente fortes para passar pela grossa camada de escamas naturais da serpente, que veio em investida para os dois invasores.

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Em meio ao escritório, o pássaro voava e revoava, grasnava de uma forma selvagem e incontrolável. Ele tentava chamar a atenção do homem que estava sua frente, mas esse só queria que ele sumisse o mais rápido possível. Da sua boca nojenta um líquido escuro e fedido saiu, parte daquele jorro caiu na estáua onde estava empoleirado, mas seu gesto rápido foi invisível para os olhos daquele homem e deixou parte daquele líquido nojento cair no copo de café que ele usava para beber. A ave fez um rasante e passou pela janela aberta e do lado de fora esperou, espreitando nas sombras. Depois de alguns minutos o mesmo homem bebeu do café e um luta sutil deu início. A frieza da banalidade gradativamente cedia espaço para a beleza do glamour que preenchia o ambiente com calor e brilho. A ave, já homem bateu na janela, yshilan virou e perguntou o que você aqui faz. Corbin apenas abriu um sorriso e começou a tagarelar as mentiras, as melhores que poderia contar.

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O corpo pesado atingiu o ponto preciso entre o mascarado e Slurth, que tiveram apenas que desviar um para cada lado. Sinilas percebeu, nessa hora o erro, ela tinha ficado de alvo entre os dois agressores, tendo agora dois alvos em direção diferente, tornaria o trabalho de esquiva dela muito mais complexo. O mascarado sacou uma pequena besta que mirou em um dos olhos da imensa cobra, porém, um pouco antes de atirar, o corpo pesado da cobra esmagou ele contra a parede, fazendo com que isso baixasse a guarda da cobra para uma investida forte de Slurth no corpo da serpente, bem próximo do ouvido quase surdo da serpente ele disse: “Redença agora quimera burra, antes que eu realmente queira acabar com você” Ao dizer isso Slurth jogou o seu peso na pequena faca, encravando-a mais fundo e posteriormente pulando para trás. A serpente abriu a sua imensa boca e da bolsa de veneno que se escondia debaixo da língua bifurcada projetou um longo jorro de veneno e ácido que saiu verde e causticante. Ainda que Slurth tenha conseguido pular do ataque, a sua velocidade não fora o suficiente, causando um pequeno dano na altura de sua perna. “Ótimo”, pensou Sinilas, “agora é a minha chance de esmagá-lo constrigindo o seu corpo”. O seu rabo voou como uma seta, desenroscando da cadeira e indo em direção a Slurth. Enquanto o rabo se aproximava as mãos de Slurth encravavam na própria pele, como se ele quisesse se ferir, da sua boca saiu uma voz pouco conhecida, ainda que baixa. Enquanto essa cena de autoflagelação era executada, a cobra passou a se contrair de dor. A faca encravada por Slurth começava a rodar e penetrar mais fundo, por vezes, a mesma faca afrouxava, rasgando parte da pele e da gordura, indo mais fundo. Em meio a sua concentração no cantrip Slurth disse: “Então Sinilas, onde está aquele que deveria te proteger, não você a ele.”

A resposta veio rápida. O corpo, ainda que altivo, demonstrava uma velhice que não pertencia a Yshilan há anos. A barba por fazer, as roupas quase sem brilho ou vigor, constatavam com a memória que Slurth tinha daquele duque, a banalidade cobrava um preço, por vezes alto, ainda que sutil. Slurth apenas riu, mostrando uma risada insana, enquanto sempre poderia contar com as artes das andanças, que Yshilan, no qual Yshilan era um mestre insuperável.


Owen Phillips

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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Uma noite sem Luar - Parte I


Uma pequena neblina eclipsava todo o pátio abaixo. Brinquedos infantis, gangorras, e travas de futebol eram apenas vultos leitosos nessa noite e essa era uma noite sem luar. Os brilhos da cidade londrina, as nuvens e a poluição escondiam todas as cores do céu. O vulto enegrecido erguia-se na ponta do telhado, do mais alto prédio daquela região. Aos olhos desse vulto, a escola, com seu pequeno parque, brilhava com uma luz oculta, quimérica que poucos notavam e aquilo o arrepiava em um sentido que nenhum mortal poderia ter. Para ele aquilo não era simplesmente uma fonte de poder, mas era um instrumento de vingança e ele riu. A figura pequena aproximou-se a figura oculta nas trevas e, como um pedinte sussurrando avisou: “A máscara já foi posta senhor, ao meu ver, o trabalho ficou muito bom”. Em um gesto, o mesmo ser apenas fez com que ele se calasse. A voz saiu do capuz, como a voz de uma gárgula que cuspisse água da chuva: “Onde está Corbin?”. O jovem, que apareceu logo em seguida, trazia manchas negras na altura do nariz, as sobrancelhas grossas e com a parte do maxilar posterior mais proeminente, traços, que pela escuridão ao redor, fazia uma mescla de homem e corvo.

“Sim, fale” A voz esganiçada parecia o som produzido pelo arranhar de garras em um quadro negro. “É a sua hora Corbin, faça o que eu lhe pedi e só temos uma chance. Vá.”. Enquanto o vulto olhava ao redor, buscando os irmãos Crimson, a ave negra surgiu das suas costas, voando para o mais longe possível. “Senhor, não sei onde está Al e nem Gal.” Não se poderia dizer se aquilo o havia contrariado, ou, até mesmo feito feliz, já que nenhum traço do seu rosto poderia ser visto por debaixo do escuro que o capuz projetava, mas Walt, o pequeno garoto pedinte, sabia que tanto Gal e Al poderiam ser ganhos importantes para essa investida. “Eu sei Walt, os dois estão sumidos há duas semanas e isso me preocupa”. Não havia nele um tom real de preocupação, mas apenas uma pequena ponderação, o único lugar que os faria desaparecer tão prontamente, seria, agora, o único lugar que ele não tinha poder para alcançar. Se isso fosse verdade, se esse pensamento fosse real, alguma informação havia sido omitida dele. Não era hora para aquilo. Os seus olhos percorreram e via, estavam todos lá. Que começasse o ataque definitivo.

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Os quadros inúmeros da parede eram testemunhas perpétuas, ao mesmo tempo que serviam como um isolante térmico, tudo ali era frio para ele, não importava o calor que havia. Mergulhado em papeis, cercado por trabalho, o homem que estava ali não resplandecia, nem brilhava. O seu pequeno e minúsculo apartamento não era de verdade a sua casa, mas antes um esconderijo. Ele sabia que estava sendo perseguido, para cumprir o seu objetivo, teve que pisar em alguns calos poderosos e isso teria uma reviravolta, em breve. Mas ele não se lembrava qual era o seu real objetivo, apenas uma certeza de que aquilo deveria ser feito e com urgência. Seus planos poderiam ser reduzidos em: cortar financiamentos, demitir pessoal, redirecionar propaganda, apagar fitas de vídeo comprometedoras. Trabalhos que gradativamente apagavam nele alguma chama poderosa e antiga, algo que ele devia preservar.

Naquela noite ele sonhou com reinos de névoa e com uma antiga dama a cantar para ele usando uma harpa. Ele se via deliciando com aquela harpa, a sua voz delicada dizia: “Yshilan, volte para mim, para mim... para... mim... mi”. O som plácido foi cortado por ruidosas batidas na porta. Ainda sonolento o homem foi atender, enquanto andava se perguntava: “Quem poderia bater em minha casa em uma hora tal?”. Ao abrir a porta não havia ninguém, nem perto e nem longe no corredor, havia aquele silêncio imorredouro de um prédio que levava ao fantasmagórico. Um pouco antes de bater a porta pesadamente, uma leve lufada de vento foi sentido.

Quando já na sua sala, escritório e dormitório, Sir Steven Lancaster viu um corvo aninhado em um velho busto de uma dama que usava um elmo. Como em um arremedo de uma poesia antiga, ele quis espantar aquele corvo, mas algo havia nele, alguma mensagem e, um lado por ele esquecido há semanas, não poderia rejeitá-lo. Ele aguardou, até que pudesse entender a mensagem daquele corvo, ou até que aquele velho calor queimasse todo o gelo que o prendia aquela forma mundana.

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Qualquer um que passasse por aquela velha escola, saberia que algo muito ruim estava para acontecer. Um grupo de dois encapuzados estavam na porta, seguido por crianças que no mínimo seriam ditas como sem lar, perdidas ou moradores de rua. O que era escondido pelo glamour seria algo bem mais tenebroso. Mas não havia ninguém naquele horário passando por aquele pequeno distrito residencial em Londres e sem ninguém a observou, jamais descobriram como aquele portão caiu. Duas crianças urraram, filhos do próprio terror. Seus cabelos vermelhos eriçavam, brilhavam em escarlate, enquanto suas bocas desproporcionais ao próprio corpo babavam em fúria e horror. Suas vozes pareciam de mil gritos humanos e o seu tamanho diminuto escondia a força que eles detinham. Os irmãos Crimson berraram como se estivessem em um festim de sangue dos mais violentos. O irmão mais velho correu em direção aos fundos do pátio da escola. Enquanto o grupo principal se destacou em direção aos fundos da escola, próximo a entrada escondida do porão. Naquele momento o barulho já tinha desperto tudo que havia lá.

Primeiro ouviu-se um longo pio, posteriormente o bólido penoso tinha como alvo a figura negra principal e que estava no meio, que era Slurth, mas antes que alcançasse o mesmo, barras de metais retorceram como serpentes e enroscaram na ave quimérica, primeiro nas patas, depois as asas e por o último só ouviu o piar, que era um misto de socorro e aviso. Ele pensou “Não preciso que ninguém diga que estamos aqui”, veio então a ordem: “Walt, após conseguirmos entrar no freehold, vasculhe-o todo, nós daremos cobertura . Você sabe o que eu quero, então, traga". A porta do porão foi aberta com cuidado por Walt e, ao longe, ele poderia ouvir o sibilar leve daquele monstro que seria o seu adversário por algum momento. O vento que soprou em seguida moveu as suas vestes e de seu companheiro mascarado como se as próprias vestes tivessem vida tentacular. “Entre Walt e vocês também, vamos”. A escuridão e a neblina os encobriu, mas nenhum deles se importou com isso.

To be continued

Owen Phillips

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sexta-feira, 12 de novembro de 2010

A Rainha Escarlate



A noite poderia ter começado fria, mas ela jamais sentiria, nem seus pelos eriçariam, não mais. O pior, que nem mesmo lembrança de quando foi a última vez que isso aconteceu estava em sua memória. O carro era veloz, mesmo para as ruas londrinas e o vento que soprava a trazia de volta aquelas memórias. Quando o carro finalmente chegou ao local indicado, o homem que abriu o seu carro, fazia todas as mesuras e dizia: Vossa Alteza Anne, chegamos.

Ela desceu calmamente e aquilo era um contraste único, aquela área de Londres era próximo dos muçulmanos, que infestavam Londres, mas era também um local de pobres, drogados e perdedores e, ali, até a sua não-vida resplandecia diante daquelas trevas inócuas. Com apenas um olhar o negro que a servia como chofer saiu e ficou “de guarda” esperando as novas ordens daquela mulher imensamente linda, aos seus olhos, magnânima.

Anne entrou, sem o menor esforço, naquilo que era uma lavanderia local. As paredes úmidas, as máquinas velhas e o reboco caindo combinavam com a luz tremeluzente de uma fiação ainda exposta. Ela não entendia, ele poderia ter qualquer coisa, mas insistiu tanto em esconder seu imenso poder por detrás de uma máscara tão imunda? Ela não conseguia aceitar isso. Talvez isso o tenha feito perdurar por tanto tempo, mas não a todo o tempo, que isso servisse de lição para ela mesma. Enquanto pensava essas coisas, as suas pernas já a tinham levado para a escada secreta, escondida por detrás de uma placa velha de metal que fazia a vez de um quadro de força. Qualquer um com o mínimo de perícia notaria que não havia nenhum fio de eletricidade que chegasse até aquela suspeita placa de metal. Ela pensou que, apesar de sempre ter se protegido, só se protegeu contra os fracos mortais.

As escadarias desciam por uma escuridão úmida e sem ventilação, ela realmente estava entrando em um terreno escuro e jamais visitado. Um terreno feito para caça e só isso. Ela podia sentir o cheiro de sangue de anos que eram oferecidos a seu Mentor, mas agora eram tudo lembranças. Com o manejar de um dedo a tecnologia do interruptor trouxe a mágica da luz para aquele ambiente lúgubre. Uma enorme sala se descortinou a sua frente e, em contraste da lavanderia que ele construíra na fachada, aquele ambiente era ostentoso de ouro e prata, com imagens de bois nos cantos e uma pequena pira onde, obviamente, punha-se fogo em adoração a “divindade” Mitras. Mas não era o fogo importante, mas sim o sangue e era esse mesmo sangue que chegava agora ao recinto.

O negro estava ajoelhado, semi consciente, com uma fome sobre humana. Seus piores demônios, verdadeiros Shaitans, saiam a beira da sua consciência querendo mais. Havia tanto deles que ele queria um pouco de uma paz vermelha que ele não teria, a não ser que a diabólica londrina a sua frente assim o permitisse. Ele seria torturado e, se sobrevivesse, obviamente veria o Sol, ou as presas daquela beleza monstruosa clássica de Londres.

Anne caminhou lentamente e se apoiou em um dos grandalhões que exerciam tamanha força no corpo daquele Assamita e disse: “Você, realmente pensou que o seu crime seria esquecido? Perdoado? Aceito? Se você tivesse a mínima ideia do inferno que está longe e de que toda a culpa é sua.” A mão se segurou, ela não poderia perder a delicadeza, não na frente de um selvagem assassino.

“Então comecemos, quero informações e daqui não sairemos antes que você me dê tão preciosas informações”. Seus olhos vibravam de excitação, caçar era uma delícia e ela não negava, mas ela sentia mais excitação ainda na tortura, claro que ninguém saberia desse seu prazer sádico, mas pensar que poderia se justificar a qualquer conselho de anciões como “Evitando uma invasão Assamita” lhe dava carta branca até para o delicioso Amarante. Esse nome levava a sua língua em direção aos finos e potentes caninos protuberantes.

Na madrugada do dia seguinte, duas horas antes do amanhecer, Anne, ou a Rainha Anne dos Ventrue, saia de uma velha lavanderia nos subúrbios londrinos. O seu chofer, que havia esperado todo esse tempo como um típico soldado londrino da guarda real, só agora se movia, abrindo a porta do mesmo. Anne entregou a direção sussurrando bem baixo no ouvido do seu chofer, ele consentiu com a cabeça e entrou pela porta do motorista. Naquele momento, sem que ao menos percebesse, por um ato involuntário, ou reflexivo, Anne deixou cair o lenço que trazia a boca. O lenço rodopiou no ar e caiu na sarjeta, a água que passou por essa mesma sarjeta tingiu-se de um vermelho rubro, mas sem alma, sem potência. Ali, era só sangue e nada mais.

Owen Phillips

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